quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Teologia no mundo onde vivemos

Karl Marx filosofo do século XIX dizia que: “somente avistava um pouco mais além devido estar nas costas de gigantes”. Concordo sem nenhuma restrição com essa frase, como Marx somente consigo ver um poço mais adiante devido estar nas costas de gigantes como Agostinho de Hipona, Abelardo, Ancelmo de Cantuary, Tomas de Aquino, Duns Escotus, Frasisco de Assis, João da Cruz, Tereza D, Villa, Martinho Lutero, Erasmo de Roterdan, João Calvino e etc. Pensar teologicamente é sempre olhar para trás, no sentido de visibilizar o caminho que a teologia percorreu até a atualidade. Olhar e também entender a tradição cristã e não restringi-la, mas buscar aberturas, novas posturas ao problema teológico moderno.
Portando falar de teologia é mergulhar nas múltiplas formas de pensar e fazer teologia, comparar os métodos, fazer à hermenêutica e buscar genialidade e conhecimento histórico para oferecer respostas e apresentar perguntas que estejam vinculadas a nossa situação e problemas relativos ao presente. Mas para isso, olhar para o passado faz o maior sentido, por que nos ajuda a compreender o presente e dar alguns passos rumo ao futuro. Decerto, não podemos fazer teologia esquecendo-se daquelas e daqueles que ofereceram suas vidas pela existência de seus pensamentos, falamos “livremente” hoje por que foram elas e eles que abriram o caminho do livre pensar teológico.
Conquanto, todas as teólogas e teólogos cristãos que contribuirão no campo teológico, fizeram com consciência histórica, com a cosmovisão da época. Todas e todos conheciam o chão que estavam pisando e a rua que estavam percorrendo, e por isso foram geniais no campo do pensamento. Toda época tem seus sinais, e a razão nos ajuda entender os seguintes sinais para nortear a caminhada da sociedade, por que sem o conhecimento da realidade histórica é impossível fazer teologia. Temos que concordar que o mundo de Jesus (século I) era religioso, a partir da Revolução Francesa o secularismo e o laicismo atuam na sociedade abertamente, a ciência e a tecnologia estão cada vez mais avançadas, descobrimos outros planetas e somos chamados de “seres planetários”, o ser humano foi à lua e, sociólogos e historiadores discutem se estamos ou não na (pós) modernidade. Uma teóloga e um teólogo que obtém o Maximo de conhecimento sobre a sociedade em que está situado, estão aptos para fazer teologia, como diziam Karl Barth: “Um teólogo precisa ter a bíblia numa mão e o jornal na outra”.       

Teologia na experiência humana e as escrituras

Uma das tarefas da teologia é estudar a palavra da palavra de Deus na historia e fotografada nas escrituras. . Procura-se não racionalizar o Divino, mas entender suas palavras na experiência humana. Teologia somente poderá ser possível se aceitarmos sem restrições que a revelação de Deus e a experiência humana não se opõem entre si. Ao contrario, a revelação de Deus só e perceptível através da experiência humana.
Para Edward Schillebeeckx, Deus fala por meio de seres humanos, mas a experiência humana não fundamenta a resposta da fé, a resposta da fé esta em Deus. A bíblia é objeto da teologia por que nela esta contida a revelação de Deus na historia de um povo, que se entrelaçou com a experiência dos patriarcas, dos profetas, dos sacerdotes, dos reis e dos pobres, ou seja, revelação de Deus esta na experiência humana.
Como a teologia penetra de forma “cientifica” em tudo isso que até mesmo escapa da racionalidade humana? Revelação de Deus, humanidade e experiência de fé andam juntas, a própria revelação de Deus se realiza num longo processo de acontecimento, experiência e interpretações. Schillebeeckx declara que usando uma imagem a revelação vem de cima, mas sempre é experimentada, interpretada, testemunhada e enfim “teologizada” de baixo, ou seja, pelo homem e a partir dele. Quando lemos as escrituras, na verdade estamos lendo interpretações, testemunhos e experiências humanas que precisam ser entendidas dentro do seu contexto, por isso a bíblia como objeto da teologia não contem “toda” a palavra de Deus, sendo assim Deus seria limitado por uma coleção de livros, mas ela contem as palavras das palavras de Deus na experiência de Israel. Por tanto teologia esta sempre ao lado do ser humano religioso,  por que ela mesma tem o conhecimento que qualquer experiência inclui elementos interpretativos, ela ajuda organizar essa experiência em linguagem compreensível.
È imprescindível usar uma narrativa bíblica para melhorar nosso entendimento sobre o trabalho da teologia para interpretar a experiência humana com o Divino. A pergunta de Felipe sobre o Pai (Abba) no Evangelho de Jesus em João 14. 7 – 11, vislumbra como a teologia poderá ajudar a entender a revelação de Deus na experiência humana. A pergunta de Felipe é inteligente, talvez seja a pergunta de todos os judaísmos daquela época para Jesus. Deus para o judaísmo era impronunciável, Ho Kadech (Santo) e residia nos céus. Se relacionar com esse “Deus” era cumprir toda a “Tora” (Bíblia judaica), como o judaísmo acreditava que toda a revelação de Deus estava na Tora, então examiná-la e vive-la era o caminho para se chegar à salvação. Jesus rompe com esse pensamento e propõem outro caminho para se relacionar com Deus, a revelação de Deus caminharia de mãos dadas com a experiência humana. Jesus Diz a Filipe para ver Deus a partir Dele que é humano, Ali estava a Revelação de Deus no humano chamado Jesus de Nazaré.  Essa revelação de Deus em Jesus produzia ação, dinamismo e relações, isso era uma das maneiras de Deus se mostrar. Entretanto a teologia nos ajuda a entender a revelação de Deus na face humana de Jesus, e Felipe entendeu que não era mais de cima para baixo, mas agora de baixo para cima. Por isso o teólogo Karl Rahner dizia que toda teologia e uma antropologia, no sentido que a teologia é construção humana por isso reflete o ser humano.
Sendo assim podemos considerar que a revelação de Deus não esta totalmente nas escrituras, até mesmo por que Deus não esta nas paginas de um livro, mas no coração, nas experiências e na fé dos seres humano. Ademais, a revelação de Deus ainda continua em processo, por que mesmo se revelando em Jesus de Nazaré continua sendo um mistério.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Apenas um dialogo com Werner Georg Kümmel


 Introdução ao teórico

È imprescindível para o estudante de teologia a leitura das obras do Dr. Werner Georg Kümmel. Devido ao seu rigor metodológico na pesquisa, a liberdade de posicionamento e a facilidade de seu discurso, Kümmel ocupante da cátedra de Rudolf Bultmman em Marburg, sempre foi, e continua sendo respeitado pelos teólogos e cientistas da religião como uma das principais autoridades na pesquisa neotestamentaria.
Ademais, Werner Georg Kümmel desenvolveu seu próprio estilo, jamais se alinhou à escola do grande mestre Rudolf Bultmman, nem de qualquer outro. Mas sempre dialogou, às vezes de modo subentendido, com as propensões teológicas de seus contemporâneos.
Werner Georg Kümmel nasceu em 1905, na cidade de Heidelberg, Alemanha. Com 23 anos concluiu seu doutorado e aos 27 tornou-se professor em Zurique, Suíça. Depois da Segunda Guerra Mundial, voltou para a Alemanha, ensinou nas Universidades de Mainz e de Marburg, onde substituiu o renomado teólogo Rudolf Bultmann. Faleceu em 1995 em Mainz aos 90 anos de idade.
Sem nenhuma suspeita, Kümmel continua sendo um forte interlocutor teológico na atualidade, sua habilidade na pesquisa neotestamentaria de maneira alguma dispensa o caráter da fé, ao contrario, ela mesma (a fé) tem interesse na historia. Ela mesma também tem interesse em conhecer a “historia” onde está subentendido a mensagem do evangelho. Conseqüente a forma exegética de Kümmel é critica. O Dr. Gottfried Brakemeier no prefacio da 4 edição da obra “Síntese Teológica do Novo Testamento” reeditado pela editora Teológica destaca o seguinte: “Conforme Kümmel, assim o podemos interpretar, a proibição da critica iria corroer a credibilidade. Seria sinal de indevido proteção a escritura., provocadora de suspeitas. Por outro lado, a desconfiança, quando obsessiva, violenta os textos e conduz a distorção historiográficas”[1].  Em outros termos a critica obsessiva é desprovida de credibilidade da exegese histórico - critica. Esse não é o caso de Kümmel, sua exegese histórico – critica percorre no campo da confiabilidade e inautenticidade. Essa ultima e fundamental para sua analise Textual do Novo Testamento.

Werner Georg Kümmel e suas considerações metodológicas

Síntese Teológica do Novo testamento foi lançada em 1969 na versão original alemã: Die Theologie dês Neum Testaments Nach Sunen Hauptzeugen: Jesus, Paulus, Johannes. Teve varias reedições, traduzida para o português, tendo a 1 edição em 1974, pela editora Sinodal. 
Lembro-me quando iniciei no seminário em 2005, o nome Werner Georg Kümmel era citado pelos professores de exegese do Novo Testamento e Introdução a Teologia do Novo testamento como uma das principais autoridades contemporânea no campo da pesquisa neotestamentaria. Muitos estudantes de teologia e de Ciência da Religião já tinham trabalhado com a sua obra: Introdução ao Novo Testamento, traduzida para o português e publicada pela editora Paulus em 1982. Werner Georg Kümmel foi no principio do meu seminário um referencial teórico necessário, minha ignorância sobre o assunto (teologia do Novo Testamento) já estava sendo notada pelos colegas de turma. Foi então que me propus a estudar com veemência e coragem as teologias do Novo Testamento, tratei-me logo de fazer uma bibliografia sobre o assunto, iniciei a leitura o mais rapto possível.
Uma das obras que compunha a bibliografia sobre a pesquisa das teologias do Novo Testamento que propus a ler foi a excelente obra de Kümmel: Síntese Teológica do Novo Testamento, que com atenção e precisão decidi fazer uma síntese. Nesta obra, Kümmel nos apresenta ou pelos menos tenta apresentar o conteúdo central da pregação de Jesus, da teologia de Paulo no contexto da comunidade primitiva e da mensagem de Cristo no Evangelho de João.
Lendo a seguinte obra, percebi o esforço de Kümmel em apresentar o conteúdo teológico do Novo Testamento como uma grandeza histórica livre. Mesmo que este conteúdo teológico possa ter possibilidade de tensão com todas as formas de Teologia Dogmática. A pretensão da dogmática em “apresentar a doutrina da fé”, diz Kümmel, “como resposta a pergunta pela natureza da revelação de Deus em Jesus Cristo, evidentemente devera ter por objetivo a exposição de uma doutrina uniforme”[2]. Caminhando ainda nesta discussão compreendi que o auxilio da ciência histórica nos faz perceber que a pergunta pela unidade do Novo Testamento é complexa, logo pela pluralidade vozes nele apresentado.
Esta discussão apresentado pelo autor remeteu-me a reparar que a partir do século XIX a pesquisa cientifica passou a evidenciar, que a existência de uma pluralidade de vozes exposta no Novo Testamento, por vezes se contrariam e que, em todo caso, se manifestam de maneira tão diferente que sua mensagem não pode ser ouvida em consonância sem que antes por um exame. “Por essa razão”, diz Kümmel, “a tarefa de uma teologia do Novo Testamento não pode consistir primeiramente em apresentar opiniões do Novo Testamento como um todo, em forma de um sumario” [3]. Deixando transparente com tom de repreensão, kümmel ainda observa que a tarefa primeira de uma teologia do Novo Testamento de nenhuma maneira é buscar a uniformidade, a sua tarefa poderá consistir unicamente em permitir que cada escrito, ou, grupos de escritos, manifeste cada qual a sua vez, e somente então perguntar pelo que estes têm em comum entre si, mesmo com suas diferenças.
Estas considerações metodológicas de Kümmel indicaram-me um caminho, que até agora não me arrependo. Acredito que não somente eu, mas professores e alunos e também a quem procura compreender o evangelho, encontraram em Kümmel um estilo inconfundível de se expressar cuidadosamente preocupado com seus leitores acadêmicos e leigos.   

                 Um dialogo com Kümmel acerca de João Batista 

          O meu interesse neste resumo é explorar a apresentação que Kümmel faz da pregação de João Batista e a maneira como os evangelhos canônicos o descreve. Essa dissertação realizada pelo autor se encontra no primeiro capitulo de sua grandiosa obra: Síntese Teológica do Novo Testamento.  

          È trabalhoso ter uma concepção histórica objetiva a respeito de João Batista, até mesmo, por que os evangelhos o descrevem a partir da fé da comunidade, de ser o próprio (João Batista) o precursor de Jesus. Kümmel diz que, “o único relato de precedência não-cristã e o do historiador Flavio Josefo”[4]. Josefo se preocupa em caracterizar João Batista como um pregador moralista politicamente inofensivo. Com isso, o relato da execução de João Batista ordenado por Herodes, não fica muito bem explicada. Por isso e trabalhoso obter uma concepção histórica objetiva de João Batista. Mas nem tudo esta perdido, para Kümmel é possível reconhecer certos traços básicos de sua pregação, sobretudo os que interessam para a analise de relação ao não, entre a pregação de João Batista e a de Jesus de Nazaré.
           Os relatos contidos nos evangelhos da pregação de João Batista deixam ver indistintamente que João Batista anuncia o juízo imanente de Deus. O interessante é que, esta mensagem não era nova para os judeus, se vazia ouvir com freqüência em Israel desde os tempos do profeta Amós. Para Kümmel, João Batista atualizou de maneira dupla a concepção tradicional de juízo. Esta atualização do Juízo, esta no dizer de João Batista que este Juízo e dirigido a todos (nem mesmo os judeus poderiam ter vantagem diante de Deus), a relação não é mais a partir de uma “Nação Eleita”, mas sim determinada por sua condição de ser humano.
           João Batista não foi somente um pregador do juízo. João também soube apontar para um caminho de salvação, ao proclamar o batismo da “Meia-volta”, expressão que designa uma mudança de rumo, o abandono do caminho falso e um trilhar decidido no caminho certo (a palavra aramaica que no português é reproduzida erroneamente com “arrependimento”), “João Batista”, diz Kümmel, “relaciona esse chamado profético a meia-volta com a reivindicação de as pessoas se deixarem batizar no rio Jordão para perdão dos pecados”[5].
A complexidade da questão do batismo realizado por João Batista suscita a indagação: Em que contexto da historia das religiões deve ser enquadrado o batismo de João Batista? Kümmel observa que existe uma pluralidade de idéias aproximadas deste no contexto dessa pergunta. Existi a difundida opinião de que João Batista tinha tomado o costume judeu do batismo de prosélitos, adaptando-o a situação do povo judeu de sua terra. Também alguns pesquisadores afirmam que João Batista teve contato pessoal com um grupo de judeus separatistas, os quais nos são conhecidos de Qumran, e de que tenha tomado às abluções rituais dessa seita. Para Kümmel é impossível saber se este grupo de judeus separatistas tinha praticado um único de ablução como rito de iniciação a sua seita, “tampouco se consegui provar”, Kümmel diz, “que tenha existido qualquer relação entre as abluções por elas praticadas e o juízo final” [6]. No entanto observa que João Batista tenha desenvolvido o seu batismo a partir de tal concepção de uma forma marginalizada do judaísmo, entretanto, a forma peculiar de seu batismo não teve um modelo real. Contudo pode-se dizer, com probabilidade, que o batismo era compreendido como um sacramento relacionado com o iminente juízo final.
E a questão do Juízo na pregação do Batista?  O juízo final estará nas mãos de quem? Segundo a pregação de João Batista apresentada pelos evangelistas, este juízo estará nas mãos de alguém mais poderoso que ele (Mt 1.7; Lc 3.17). Ora, João Batista não se auto reconhece como o portador do juízo, mas sim o precursor do juízo celestial, o qual será encerrado por Deus depois dele. O relato de Marcos, João Batista igualmente disse que este “mais poderoso” batizara com Espírito Santo. Para Kümmel a linguagem figurada de “mergulhar no fogo”, como indicação a provação do fogo por ocasião do juízo final é perfeitamente compreensível. Agora “mergulhar no Espírito Santo”, porém, é uma figura inconcebível. Hipóteticamente poderíamos dizer que esta figura poderia ser nada mais do que a anunciação da salvação. Para kümmel, esta expressão “batismo com Espírito Santo”, pode ser um acréscimo nas palavras originais de João Batista efetivada pela tradição cristã, pelo fato de que, para os cristãos, o batismo esta relacionado com a dádiva do Espírito Santo. Conquanto, se essa suposição coincida com a realidade, João Batista anunciou somente o juízo do fogo a ser efetivado pelo mais poderoso que viria após ele.
Não e possível dizer fidedignamente que João batista afirmou ser Jesus este “mais poderoso”. João não aponta nenhum nome, apesar do evangelho de João mencionar que Jesus seria este “mais poderoso”. Mesmo assim não podemos afirmar tal titulo a Jesus, por que bem sabemos que o evangelho de João faz menção dessa expressão a partir de uma perspectiva da fé cristã. Ora, se de fato João Batista tinha tanta certeza de que Jesus era ou seria o “mais poderoso” por que a pergunta na masmorra: Este é aquele que estava para vir ou havemos de esperar outro? (Mt 11. 25). Uma coisa e certa, não temos noticia nos evangelhos, contudo, se João Batista, através do feito de Jesus ter apontado para seus feitos extraordinários e para sua pregação do evangelho aos pobres, lhe convenceu de que com Jesus veio o esperado juiz da humanidade. Segundo Kümmel não se sabe se João se decepcionou com a ausência do juiz cósmico ou se foi ao encontro da morte cheio de esperança por causa da intervenção de Deus sucedida em seu mensageiro escatológico.         
A problemática levantada sobre a questão da decepção ao (não) de João Batista acerca do juiz cósmico em Jesus, fica em aberto para os biblistas discutirem. O que podemos afirmar a luz da exegese histórico – critica e que João Batista pintado nos evangelhos morre esperançoso, também sobre a seqüência de sua pregação por Jesus é duvidosa, se analisáramos a passagem do evangelho de Marcos 1. 14 detalhadamente observaremos que nada mais é que um resumo de toda pregação de Jesus, de autoria do próprio evangelista, e não podemos ser entendida como sendo dito transmitido de próprio Jesus.
Em fim, nada disso diminui João Batista, ele continua sendo digno de maestria. Para alguns ele foi apenas o fundador do mandeismo, para outros um esperançoso louco pregoando uma mensagem sem sentido, mas lendo atentamente as narrativas das comunidades sinóticas cristãs (Marcos, Mateus, Lucas e João) podemos considerar que do ponto de vista da historiografia quase nada (ou nada) sabemos de desse personagem, mas a sua pregação apresentada nos evangelhos vislumbrou a imagem de alguém que acreditava com veemência que o Messias (Ungido) entraria na historia para mudar o destino dos israelitas. Ele não esta alienado das esperanças messiânicas do povo de sua época, da crença que nascia do chão da camada dos pobres o “Ungido” que traria libertação total do Império Romano. Alias, João batista pregava no rio Jordão, aquele mesmo rio que o povo hebreu teve que atravessar para conquistar a terra prometida. Batizar no rio Jordão simbolizava também a retomada da terra que estava sobre o poder do império romano que os massacrava. Ser batizado naquele mesmo rio e por João, representava a crença de que o Messias também estava vinculado com aquelas mesmas esperança dos pobres, e por isso Jesus, segunda a narrativa dos evangelhos vai ao encontro de João, o Batista, e deseja ser batizado por ele.

  Bibliografia

  KUMMEL, Werner Georg. Síntese Teológica do Novo Testamento. Tradução Silvio Scheider e Werner Fuchs, São Paulo, Editora Teológica, 2003.





[1] KUMMEL, Werner Georg. Síntese Teológica do Novo Testamento. Trad. Silvio Scheider Fuchs. São Paulo, Editora Teológica, 2003, p. 23

[2] Idem. p. 31
[3] Idem. p. 33

[4] Idem. p. 46

[5] Idem. p. 47, 48
[6] Idem. p. 48

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Carta aberta a Ricardo Gondim


Carta da liderança dos Jovens da Betesda de São Paulo a Ricardo Gondim



Em tempo de mentiras, fofocas, intrigas e má fé, é importante descer do muro e se posicionar. Quem assim orientou foi o Dr. Martin Luther King Jr., que em sua carta da prisão em Birminghan, de 1963, escreveu: “Mais nociva que a minoria de homens maus que criam a injustiça é a maioria de homens “bons” que não fazem nada para denunciá-la”.
Dr. King dirigiu a carta aos pastores brancos que o pressionavam a se calar a respeito dos direitos civis dos negros, criticavam suas manifestações, chamavam King de extremista, anarquista, ateu e humanista.
Isso aconteceu numa época em que ter a pele escura, nos EUA, era sinônimo de “não ser gente”. Quem era o Dr. King para querer transformar negros em gente e lhes dar direitos civis?
O argumento vigente contra os direitos civis dos afro-americanos vinha da Bíblia. A maioria dos cristãos (brancos, claro) afirmava que Deus não queria que os diferentes descendentes de Noé fossem misturados aos brancos puros, alvos mais que a neve.
Da boca do falecido senador norte-americano Absalom Robertson – pai do famoso televangelista Pat Robertson – veio a conclusão que representava a mentalidade branca cristã norte-americana na década de cinquenta: “Eu certamente gostaria de ajudar as pessoas de cor, mas a Bíblia diz que não posso” [i].
Cada época tem seu argumento bíblico conveniente para oprimir as minorias.
Voltando ao assunto, não podemos nos calar diante de uma cruel injustiça que estamos testemunhando. Queremos fazer algo para denunciá-la. Não podemos ver lobos em pele de cordeiro dar a última palavra como se fosse verdadeira.
A injustiça a qual nos referimos é o violento e sistemático ataque ao Pr. Ricardo Gondim. Não é de hoje que os ataques acontecem, mas pioraram dramaticamente depois de sua entrevista à Carta Capital, quando se posicionou a favor de estender direitos civis aos homossexuais, garantindo-lhes o reconhecimento jurídico de união estável perante o Estado.
A partir daí mentiras foram inventadas, de propósito, por pessoas de má fé que não gostam do Gondim e que queriam, a todo custo, que sua voz fosse enfraquecida no universo evangélico brasileiro.
Interessante é que a maior parte de seus acusadores e perseguidores nunca leu um livro que ele escreveu, ou um artigo, uma entrevista, nunca foram em um culto na igreja Betesda do Jardim Marajoara, em São Paulo – onde ele é pastor e prega todos os domingos – não conhecem os membros da Betesda e não sabem quase nada sobre a história de vida do Gondim nem da Betesda. Apenas repete o discurso inflamado de seus líderes e pastores que vêem no livre-pensar do Gondim uma ameaça.
Afirmam que o pensamento do Gondim é uma ameaça à Bíblia e à fé cristã – mas é claro que isso é pretexto, para não dizer balela. Quem conhece a Betesda e o Gondim sabe que ele prega todos os domingos na Bíblia e que proclama em alto e bom som a fé cristã: Jesus é Deus encarnado, nascido de uma virgem por meio do Espírito Santo, morreu na cruz por amor de nós, a fim de nos salvar, e ressuscitou no terceiro dia vencendo a morte, estendendo a ressurreição a todos os homens e mulheres por meio da fé. Os que o consideram ameaça, portanto, consideram contra si mesmos, suas doutrinas maléficas, suas estruturas de poder e manipulação mental de gente honesta e de boa fé.
O Gondim virou o herege da vez. O inimigo da vez. Nada mais mesquinho e estranho ao Evangelho – que nos convida a amar os inimigos, mas parece que o universo evangélico se especializou em produzir inimigos para odiá-los em comunhão.
“Heresia” é uma palavra criada para tentar invalidar ideias opostas às ideias vigentes. Criar hereges é fonte de alianças maquiavélicas, para calar a boca de quem incomoda as maiorias, sempre poderosas. O Dr. Martin Luther King Jr. também já foi acusado de herege pelos pastores poderosos de sua época – e libertou um povo oprimido, dando a eles direito à cidadania. Lutero também já foi acusado de heresia, e é reconhecidamente o maior herege da Modernidade – é só por causa dele que temos livre acesso e interpretação da Bíblia. Os apóstolos foram chamados de herege por anunciar que Deus havia encarnado em Jesus Cristo. E, por fim, Jesus já foi chamado de herege por se posicionar ao lado de uma mulher adúltera, relativizando uma lei mosaica, e libertando-a de um assassinato por apedrejamento – por essas e outras, foi parar numa cruz.
Heresia pressupõe uma verdade absoluta. Na fé cristã essa verdade é o Amor, não uma doutrina ou um dogma. Por isso não consideramos o Ricardo Gondim um herege, pois nunca o vimos relativizar a revelação que Deus é Amor. Ele é um herege apenas para quem considera alguma doutrina e lei absolutas. Mas nesse caso, King, Lutero, os apóstolos e o próprio Jesus também eram, então o Gondim está em ótima companhia, e seguindo um excelente caminho.
Se for assim, ainda bem que há hereges, e que ele é um! Nesse caso, aceitaremos o adjetivo como elogio.
Escrevemos para nos posicionar ao lado de quem tem nos ensinado a pensar, a ser livres e a amar. Escrevemos para dizer “obrigado” e “estamos juntos”, a quem nos tem ensinado a crescer a amadurecer na fé cristã.
Como escrevemos em 2007, voltamos a afirmar: aprendemos que qualquer um que tenta abrir os olhos de pessoas encabrestadas pela religião, acaba sendo queimado na fogueira da instituição.
Estamos seguros que o Verdadeiro Amor lança fora todo medo, e por isso não temos medo de caminhar com alguém que nos ensina a lidar responsavelmente com a liberdade do amor.
Obrigado Pr. Ricardo Gondim, conte com a gente. Sua vida tem sido inspiração para todos nós.

[i] HITCHENS, Christopher. Deus não é grande: como a religião envenena tudo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2007. Pág 166.

domingo, 1 de maio de 2011

Profeta do Antigo Testamento Perdido no Século XXI: Uma homenagem ao teologo José Comblin



Um dia um camponês do sertão pernambucano disse-me: "Eu sou alfabeto, mas quando ouço o vigário explicar o evangelho, acho que ele não lê tudo, porque o que lê, sempre dá razão a ele". Esse camponês era muito inteligente. Pois o vigário escolhe sempre o que é favorável a ele – Jose Comblin

Nascido em Bruxelas, em 22 de março de 1923, padre Comblin veio para o Brasil em 1958, atendendo a apelo do papa Pio XII, que no documento Fidei donum (O Dom da Fé) pedia missionários voluntários para regiões com falta de sacerdotes.
Depois de trabalhar em Campinas e, em seguida, passar uma temporada no Chile, foi para Pernambuco, em 1964, quando d. Helder Câmara foi nomeado arcebispo de Olinda e Recife. Perseguido pelo regime militar, foi detido e deportado, em 1972, ao desembarcar no aeroporto de volta de uma viagem à Europa.
Padre Comblin trabalhou posteriormente com d. José Maria Pires, então arcebispo de João Pessoa. Desde o ano passado, morava na cidade de Barra, na Bahia, com o bispo da diocese, d. Luiz Cappio, conhecido nacional e internacionalmente por feito greve de fome em protesto contra as obras de transposição do Rio São Francisco.
Morreu em Salvador aos 88 anos. Foi encontrado morto, sentado, em seu quarto. Ele tinha problemas cardíacos e usava marcapasso. Apesar da doença, parecia bem disposto e estava trabalhando. Segundo Padre José Oscar Beozzo, o Padre Comblin levantou-se cedo, tomou banho, aprontou-se, mas não apareceu para a oração da manhã. Procuram-no e o encontraram-no sentado no quarto e já morto.
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O texto a seguir reflete a simplicidade e genialidade do teólogo Jose Comblin em apresentar a reflexão de um Deus que se compartilha sem o poder esperado pelos humanos. Dialoga sobre a liberdade humana discutindo argumentos de J. P. Sartre e, nos oferece uma brilhante leitura sobre a fraqueza de Deus.

Fraqueza de Deus

Boa parte do ateísmo contemporâneo baseia-se na objeção enunciada com muita força no passado por J. P. Sartre e retomada pelos seus discípulos: “Se Deus existe, eu não sou nada”. 
Se existe um Deus onipotente, o que ainda sobra para mim? Essa presença ao meu lado do poder absoluto torna irrisórias todas as minhas ações. Diante do infinito, todo o finito torna-se irrelevante. Há muitas maneiras de enunciar o argumento.
A objeção foi formulada desde a Idade Média, mas não conseguiu convencer. A resposta diz que Deus e o homem não se situam no mesmo plano, como duas liberdades em competição. 
A resposta não convenceu porque durante séculos os teólogos debateram a questão da predestinação, isto é, da compatibilidade entre a liberdade de Deus todo-poderoso e a liberdade humana.
Assim fazendo, situaram no mesmo plano as duas liberdades. Se os teólogos – tomistas, dominicanos e jesuítas – tomaram essa posição durantes séculos, não é estranho que filósofos façam a mesma coisa. 
De qualquer maneira, a pessoa sente tantas vezes o conflito entre a sua vontade, o seu desejo e o que diz que é a vontade de Deus, que a reação parece inevitável. Os sartreanos sustentam que, para ser livre, é necessário negar a existência de Deus. Infelizmente para eles, Deus não depende das negações ou das afirmações de Sartre. 
A verdadeira resposta está na fraqueza de Deus. O nosso Deus é um
Deus “escondido” – tema constante da tradição espiritual cristã. 
É um Deus que se manifesta no meio da nuvem, que se faz perceptível, mas não impõe a sua presença.
A liberdade consiste justamente nisto: diante do outro, a pessoa pára, reconhece e aceita que exista. Abre espaço, acolhe. Longe de dominar, escuta e permite que o outro fale primeiro. Assim Deus suspende o poder de Deus. 
Nenhuma evidência, nenhuma ameaça, nenhum constrangimento força nem obriga. Deus permite e deixa fazer. Deus respeita o outro na sua alteridade e permite, até mesmo, que o outro se destrua sem intervir. A liberdade de Deus consiste em permitir e ajudar a liberdade do menor dos seres humanos. A liberdade de Deus reprime o poder. Torna-se fraca para que possa manifestar-se a força humana. 
O hino de Filipenses 2.6-11, núcleo da cristologia paulina, expressa essa fraqueza de Deus. Pois o aniquilamento de Jesus incluía o aniquilamento do Pai: "Esvaziou-se a si mesmo e assumiu a condição de escravo, tomando a semelhança humana. E, achado em figura de homem, humilhou-se a foi desobediente até a morte, e morte de cruz!” (Fl 2.7-8). 
Deus escondeu o seu poder até a ponto de as autoridades de Israel não o reconhecerem. É desta maneira que Deus se dirige às pessoas: sem intimidação, sem poder, na dependência de seres humanos, entregando a própria vida nas mãos de criminosos. Quem dirá que dessa maneira Deus faz violência às pessoas?
Como comentou Levinas, o outro é o desafio da liberdade, a provocação que a desperta. Diante do outro há duas atitudes: examiná-lo para ver em que lê me poderia ser útil ou qual é a ameaça que representa para mim, ou então, perguntar-me o que eu poderia fazer para ajudá-lo. 
A liberdade de Deus autolimita-se. Diante da sua criatura,
Deus limita sua presença. Deus preferiu antes deixar que crucificassem o seu Filho a intervir para impedir tal justiça. Trata-se de fraqueza voluntária.
É verdade que durante muitos séculos, sobretudo na pregação popular, os pregadores apresentaram uma concepção bem diferente de Deus. Usaram temas e comportamentos da religião popular tradicional: medo diante do trovão, medo da seca e de cataclismos naturais – entendidos como castigos divinos –, medo das doenças recebidas também como castigos e assim por diante. 
Era fácil despertar o temor a partir de idéias puramente pagãs ou supersticiosas. Essa pregação de terrorismo religioso podia dar resultados imediatos, levando milhares de pessoas aos sacramentos. A longo prazo, porém, destruíram as bases da credibilidade da Igreja.
Hoje a maioria das pessoas deixaram de ter medo do trovão, não sendo mais motivo para temer a Deus, como foi no passado. Naquele tempo achou-se válido o método do temor, todavia hoje recolhe-se os frutos dessa pastoral.
Pensou-se que os povos precisassem temer um Deus forte – e desprezariam um Deus fraco. Tais erros se pagam cedo ou tarde. Estamos pagando hoje esse preço. Deus torna-se fraco porque ama. Quem mais ama é sempre mais fraco. Não será essa a grande característica das mulheres? Quase sempre amam mais, e, por isso, sofrem mais. Porém, nessa fraqueza consentida não estará a maior liberdade? 
Nessa fraqueza a pessoa vence todo o egoísmo, todo o desejo de prevalecer, toda a preguiça de aceitar maiores desafios. Exige mais de si própria, vai mais longe, além das suas forças. “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (João 15.13). Aí está também a expressão suprema da liberdade. 
A fraqueza de Deus vai até a ponto de se tornar suplicante. O versículo predileto do saudoso teólogo latino-americano Juan Luís Segundo diz; “Eis que estou batendo na porta: se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, entrarei na sua casa e cearei com ele e ele comigo (Apocalipse 3.20).  Deus bate na porta e aguarda. Se não é atendido, afasta-se e continua o caminho. Somente entra se é convidado. Depende do convite da pessoa. Deus torna-se pedinte, suplicante. 

(extraído de "Vocação para Liberdade" - Editora Paulus.)

quinta-feira, 28 de abril de 2011

O Rei e a Camponesa



Ele era um rei diferente dos outros. Não herdou a arrogância e preponderância de seu pai nem tão pouco seguia a risca as tradições.
Seu reino era conhecido por todo Ocidente: padres, bispos, nobres, soldados e camponeses formavam seus súditos. Seu castelo era construído de blocos de pedra, localizado na região alta de seu feudo, pois assim ficava mais fácil visualizar a chegada de seus invejosos inimigos. Cercados por muralhas e torres, posicionados por arqueiros e outros tipos de guerreiros, era uma visível fortaleza.
Com o tempo, o castelo do rei, tornou-se refugio dos habitantes de seu feudo, inclusive dos camponeses (servos). Algumas vezes estes, sentindo-se ameaçados pela proximidade dos inimigos, corriam em busca de abrigo dentro das muralhas do castelo. O rei bondoso os acolhia oferecendo sua proteção.
A parte interna do palácio era fria e rústica; os cômodos eram enormes e em grande quantidade. Frio e sem alegria também estava o coração do rei. Seus pais já tinham mergulhado na morte. Não gozava de uma rainha e nem tão pouco filhos para a sucessão de seu trono. Todos os dias ele penetrava em seu aposento com uma serva qualquer e, ao sair na manhã seguinte, a tristeza desenhava sua face. Com toda aquela fortaleza de seu castelo, o rei se sentia sozinho e triste por não encontrar a futura mulher que lhe traria alento e amor.
Nas festas comemorativas era o primeiro a ausentar-se para seus aposentos com uma taça de prata a locupletá-la de vinho na mão direita e caminhava para o exílio de seu quarto
Foi então que um de seus amigos, o padre Plínio, teve uma idéia. Plínio tinha acesso irrestrito ao rei e por isso, propôs um baile convocando todas as moças nobres do reinado para se candidatar a futura rainha. No primeiro momento, o rei rejeitou a idéia. Dizia ele que somente entrelaçaria o seu coração com outra na sinfonia do amor. Plínio insistiu até obter a resposta que lhe prazerava.
Imediatamente escreveu as cartas convocando as princesas de todas as províncias do reinado, procedendo posteriormente, chamou o mensageiro que velozmente atendeu a ordenança.
A organização do baile procedia do grupo de servos e servas que trabalharam intensamente nos preparativos, desde a cozinha ao grande salão principal. Chegado o dia do baile, no inicio da tarde, as carruagens traziam as princesas sorridentes e pomposas. O salão foi preenchido pela presença dos convidados e o rei esperançoso aguardava a hora das apresentações. Então, o momento esperado aconteceu: todas as princesas apresentaram-se dizendo pelo menos suas três gerações e os interesses políticos e econômicos na relação. De todas elas, nenhuma agradou o coração do rei. Educadamente, despediu-se das convidadas e com lagrimas desenhando trilhas em sua face, regressou para seu frio aposento.
Aquela noite lhe foi a mais dolorosa, nenhuma serva entrou no quarto, aos prantos rasgava as suas vestes e dizia; “maldito homem que sou, ainda não conheci o amor e não muito tarde irei para o tumulo”. O momento era de solidão e sofrimento, o silencio interponha-se no palácio e o bondoso rei nadava-se na angustia.
Mas o outro dia irradio com o despontar do sol nas janelas de seu aposento, era a hora de acordar e continuar a viver bondosamente, mesmo com o coração dilacerado na memória da frustrante experiência, a figura do rei tinha que ser firme. Levantou, deu as ordens aos súditos e sentou-se em seu trono para resolver problemas de seu reinado. E assim a vida para o rei era monótona e sem surpresas, mas todas as noites quando retornava para o seu tratado intimo, a solidão esmagava-lhe o coração.
Um certo dia acordou disposto e fez algo diferente. Solicitou a presença de alguns soldados e do cocheiro. Para os saldados reclamou uma escolta e em seguida ordenou ao cocheiro que lhe separasse o melhor cavalo. Espantados sem saber o que estava acontecendo, tanto os soldados como o cocheiro teve suas interrogações, mas ordens eram para serem compridas principalmente vindas do rei.
Deixando seus afazeres diários o rei foi para o lado exterior do palácio, os súditos e principalmente seu amigo Plínio se espantou. Subindo nas costas do cavalo, com a coroa quase descambando de sua cabeça, segurou firme nas rédeas e galopou para o destino das aldeias onde residiam os camponeses. Os soldados preocupados sem entender absolutamente coisa alguma fazia a escolta com uma das mãos firmes na espada, até por que já não estavam mais dentro das muralhas que lhes possibilitavam fortaleza.
Ao chegar à aldeia que fazia parte seu reinado o rei esbanjava em sua face a surpresa da realidade sofrida, mas ao mesmo tempo alegre daqueles plebeus. Os camponeses não acreditavam no que estavam vendo, era o próprio rei caminhado no vilarejo em silencio. Foi quando o seu coração disparou impulsivamente, seu olhar percorreu a ultima casinha humilde de palha e visibilizou uma camponesa segurando uma sexta de flores, era a mais bela mulher que o rei já tinha visto em toda sua existência. O sorriso dela forçou a abertura do coração dilacerado do rei em concretizar o aparecimento do amor, sua beleza hipnotizou-o tornando-se frágil para o sentimento. Não restaram duvidas, o rei tinha encontrado a sua amada. Outorgou a ordem para os soldados que a levassem ao o palácio e anunciassem para o reinado que a futura rainha foi encontrada. Colacando em pratica a ordem, o rei regressou ao palácio com sua amada em silencio e vergonhosa.
A noticia se espalhou por todo reinado, todas as princesas murmuram-se de raiva pelo rei ter se apaixonado por uma plebéia. Os seus amigos, padres e mesmo seu intimo Plínio lhe aconselhou a não fazer tal besteira, mas nenhum deles entendia que existem razoes do coração que a própria razão desconhece.
Depois de um tempo curto era a hora de oficializar o casamento. O rei alegre e feliz esbanjava musicas em seu palácio. Todos foram convidados, até mesmo os camponeses. Agora não era um baile, mas uma festa de casamento, uma unificação de duas pessoas em um só corpo. Tudo correu de maneira bela, a festança extraiu elogios e o rei felizmente conheceu o amor.
Passando os anos a alegria e a felicidade do rei continuava a mesma, sorridente todos os dias colhia flores de seu jardim e presenteava a rainha, que não era mais camponesa. Mas o sorriso não era o mesmo no rosto belo da rainha, ela vivia aos cantos do palácio, não fazia juras de a mor ao rei, com certeza aquele sorriso de camponesa tinha perdido ao caminho do palácio. Não se alimentava e às vezes trancava-se no quarto chorando. Alguma coisa estava acontecendo, e o rei tão ludibriado pelo seu amor não notou essa mudança de comportamento da rainha. Até que um dia ele percebeu que ela não era mais a mesma, já não descia para caminhar com ele no jardim, não lhe dava filhos e já não escondia sua angustia.
Tendo essa percepção o rei a chamou e perguntou: “Meu amor por que você esta tão melancólica, em seu rosto belo já não encontro aquele sorriso de antes e por que você não caminha mais ao meu lado no jardim? O que posso fazer para te ver sorrindo e feliz? Até a metade do meu reinado eu te presenteio”. Com as lagrimas cobrindo seu rosto a rainha disse gaguejando: “O meu rei, meu senhor e bondoso rei, quando Sua Majestade visitou a aldeia onde me residia e me visibilizou não somente com os olhos, mas com o coração, era tudo que uma camponesa desejava pra sua vida. Mas eu nunca te amei, Sua majestade praticamente me obrigou a vir para esse palácio somente por que sou a mulher de seus sonhos. Mas a Sua majestade nunca perguntou qual era o meu parecer em relação a tudo isso, quem me amava era a Sua majestade, eu era somente uma simples camponesa noiva de um plebeu. Eu não o amo”. Chocado com a resposta o rei aos prantos compreendeu o seu “equivoco” e replicou dizendo: “O que eu posso fazer para você me amar e se sentir feliz ao meu lado?”. A rainha vertendo em lagrimas condisse: “Deixa-me voltar para minha aldeia, para junto de minha família e amigos, também para o meu noivo. Se na distancia de sua presença eu sentir a tua falta, voltarei e você hó rei terá uma amada feliz aos seus braços. Mas se não sentir a sua falta, Sua majestade terá que me esquecer por que não regressarei”. O silencio pairou o ambiente do palácio, parado e pensativo o rei permaneceu. Depois do aguardo silencioso o som da voz reapareceu de maneira calma e serene, o rei verbalizou: “O meu amor por você foi cego, mas não desprovido de liberdade. Você é livre para voltar a sua aldeia, para juntos de seus familiares, amigos e também de seu suposto noivo, mas tenha conhecimento de uma verdade; Eu te amo e sempre te esperarei”.
A rinha que agora voltava a ser camponesa despediu-se do rei e de seus súditos, foi escoltada para a antiga aldeia reencontrando sua família e seus amigos. O rei triste com o coração mais uma vez dilacerado acreditava em seu regresso.
Depois de um tempo a saudade apertava-lhe o coração, era a alma dizendo para onde queria voltar. A ausência da presença da camponesa em seu coração fez com que criasse a sua própria realidade aceitando a distancia. O Rei entendeu que o significado da ausência da camponesa, gerou saudade e um encontro com o misterioso; “Deus”. Resolveu amarrar a esperança em seu coração, enfrentar o mar em fúria, avançando para águas mais profundas. Em seu palácio não se fazia mais ouvir o som das musicas, mas apenas lagrimas desenhavam ruas em seu rosto.
Todas as manhãs o Rei corria a fronteira do palácio almejando visibilizar o regresso da rainha, o tempo passa e a tarde chega com falta de viveza. Retorna para parte interior do palácio com o coração apertado, mas não desiste, esperança é o que lhe move a acreditar na volta de sua amada, mesmo quando seus súditos lhe aconselham a aceitar a realidade de ela nunca mais voltar.

Explicações necessárias

“As tardes frias chegam  logo após a noite escura da alma, mas o misterioso faz nascer o amanhã e paradoxalmente Ele nos educa a amar pessoas na radicalidade da liberdade”. Essa estória constrói valores imprescindíveis na relação dos seres humanos, a liberdade é uma realidade que tanto pode gerar amor como também a pontualização de sentimentos.
Cada um dos leitores podem escrever o final desta estória, por que ela foi escrita na intenção de revelar que quem ama deixa as pessoas livres, é exatamente nessa plena liberdade que descobrimos o amor. Minha intenção quando escrevi essa estória, foi, e continua sendo, exibir as pessoas que relacionamento com Deus só é verdadeiro na plena liberdade. Não acredito em um Deus que força as pessoas a se relacionar com Ele, que por violência castiga aquelas e aqueles que não pretendem caminhar ao seu lado. Acredito no Deus de Jesus, que na parábola do “filho prodigo”, deixa o filho mais novo ir embora de casa. O pai corre o risco de o filho nunca mais voltar, mesmo assim deixa-o caminhar em sua liberdade.
O rei nessa estória representa Deus, e a camponesa nós mesmos. Deus nesta estória corre riscos por que ama e, por isso o poeta Ruben Alves entendeu essa relação de amor com pessoas livres, e disse: “Amar é ter um pássaro pousado na ponta do dedo. E quem tem um pássaro pousado na ponta do dedo sabe que a quer momento ele poderá voar”.